No entanto, sabia que isto era quase impossível, já que na primeira fila estava sentado um pequeno garoto, chamado Flávio. A professora havia observado que ele não se dava bem com os colegas de classe e muitas vezes suas roupas estavam sujas e cheiravam mal. Houve até momentos em que ela sentia prazer em lhe dar notas vermelhas, ao corrigir suas provas e trabalhos.
Ao iniciar o ano letivo, era solicitado a cada professor que lesse com atenção a ficha escolar dos alunos, para tomar conhecimento das anotações feitas em cada ano.
A professora Silvia deixou a ficha de Flavinho por ultimo. Quando a leu, foi grande a sua surpresa. A professora do 1º ano escolar de Flavinho havia anotado o seguinte: “Flavinho é um menino brilhante e simpático. Seus trabalhos sempre estão em ordem e muito nítidos. Tem bons modos e é muito agradável estar perto dele”. A professora do 2º ano escreveu: “Flavinho é um aluno excelente e muito querido por seus colegas, mas tem estado preocupado com sua mãe que está com uma doença grave e desenganada pelos médicos. A vida em seu lar deve estar sendo muito difícil”. Da professora do 3º ano constava: “A morte de sua mãe foi um golpe muito duro para Flavinho. Ele procura fazer o melhor, mas seu pai não tem nenhum interesse e logo sua vida será prejudicada se ninguém tomar providências para ajudá-lo”. A professora do 4º ano registra: “Flavinho anda muito distraído e não mostra interesse algum pelos estudos. Tem poucos amigos e muitas vezes dorme na sala de aula”. A professora Silvia se deu conta do problema e ficou terrivelmente envergonhada. Sentiu-se ainda pior quando se lembrou dos presentes de Natal que os alunos lhe haviam dado, envoltos em papéis coloridos, exceto o de Flavinho, que estava enrolado num papel marrom de supermercado. Recorda-se de que abriu o pacote com tristeza, enquanto os outros garotos riam, ao ver uma pulseira faltando algumas pedras e um vidro de perfume pela metade.
Apesar das piadas, ela disse que o presente era precioso e pôs a pulseira no braço e um pouco de perfume na mão. Naquele dia, Flavinho ficou um pouco mais na escola do que o de costume. Lembrou-se, ainda, de que Flavinho lhe observara que ela estava cheirosa como sua mãe.
Naquele dia, depois que todos se foram, a professora Silvia olhou para dentro de si mesma e chorou por longo tempo... Em seguida, decidiu mudar sua maneira de ensinar e passou a dar mais atenção aos seus alunos, especialmente a Flavinho. Com o passar do tempo, ela notou que o garoto só melhorava. E quanto mais ela lhe dava carinho e atenção, mais ele se animava. Ao finalizar o ano letivo, Flavinho saiu como o melhor aluno da classe. Um ano mais tarde, a professora Silvia recebeu uma notícia: Flavinho lhe dizia que ela era a melhor professora que teve na vida. Seis anos depois, recebeu outra carta de Flavinho, contando que havia concluído o segundo grau e que ela continuava sendo a melhor professora que tivera. As notícias se repetiram até que um dia ela recebeu uma carta assinada pelo Dr. Flávio de Freitas, seu antigo aluno. Um dia, a professora Silvia recebeu outra carta, em que Flávio a convidava para o seu casamento e noticiava a morte de seu pai. Ela aceitou o convite e, no dia do casamento estava usando a pulseira que ganhou de Flavinho anos antes, e também o perfume. Quando os dois se encontraram, abraçaram-se por longo tempo e Flavinho lhe disse ao ouvido:
- Obrigado por acreditar em mim e me fazer importante, demonstrando-me que posso fazer a diferença.
Ela, com os olhos banhados em pranto sussurrou baixinho:
- Você está enganado! Foi você que me ensinou que eu podia fazer a diferença; afinal, eu não sabia ensinar até que o conheci. É SÓ MEDITAR!
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